segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Déjà vu


Cena do filme "Tempestade de Gelo" de Ang Lee

Todos estavam preparados para a ceia, cada um em seu devido lugar. Poucos eram os minutos restantes para que o ano virasse poeira e se iniciasse outro, da mesma maneira. 
A imagem era muito similar a do ano passado, as mesmas pessoas com suas metas esquecíveis:

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Amnésia

Pôster do filme "Amnésia" de Christopher Nolan

Eu perdi o contato 
Com sua pele
Quando vi seu retrato
Sorrindo com ele.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Metrópole

Cena do filme "Drive" de Nicolas Winding Refn

Ando pelas ruas e só vejo solidão, passos que não se cruzam, cabeças inclinadas, conectadas a um mundo intocável. Nem o congestionamento congelado, as buzinas incessantes, a fumaça que paira sobre os prédios, o fétido odor do esgoto me desviam o foco dos rios de gente.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Concurso de Beleza


Cena do filme "De Olhos Bem Fechados" de Stanley Kubrick

Repentinamente, Laura interrompeu aquele corriqueiro diálogo sobre as prováveis condições climáticas do dia seguinte e fitou-o com uma inusitada profundidade:

- Você  me ama, Ricardo?

A gravidade daquela pergunta o fez hesitar por alguns segundos e respondeu com a incerteza nos olhos:

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Minha Adorável Vizinhança

Cena do seriado "Chaves" de Roberto Gomez Bolaños

Na pacata sala de aula com as paredes pálidas, as cadeiras desconfortáveis e a lousa empoeirada de giz, havia um professor que, de tão alto, parecia um quilômetro parado e que desfrutava de um imenso charuto, enquanto tentava moralizar as crianças.

Dentre os alunos, havia o pseudo-rico mimado que tinha bochechas de bulldog velho, a garotinha baixinha e desbocada que tinha um choro que ardia os ouvidos, o gordinho rico e CDF que tinha uns dentes enormes, o despreocupado carinha do fundão que tirava o cara ou coroa na hora de responder as questões das provas, o garoto pobre que odiava tomar banho e que zoava todo mundo, entre outros. Ah e também havia eu, o garotinho silencioso e tímido que apenas observava a aula, tomando cuidado para continuar sendo invisível.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

5 Motivos para Lamentar a Morte de Philip Seymour Hoffman

Eu sei que faz mais de 9 meses que o ator Philip Seymour Hoffman foi encontrado morto, vítima de overdose, no apartamento dele, porém, na época, eu já tinha pensado em fazer um tipo de homenagem para ele, só que, como grande parte das minhas ideias, eu deixei inacabada. 
Reassistindo a alguns filmes dele, deu-me uma vontade maior de retomar essa ideia. E lá vamos nós...


5 - Magnólia (Magnolia, 1999)
Cena do filme "Magnolia" de Paul Thomas Andreson
Nesse magnífico filme de Paul Thomas Anderson, Hoffman interpreta um enfermeiro particular chamado Phil Parma. Embora não tenha muito tempo em cena, ele consegue transpassar toda a bondade e sensibilidade que o personagem exige. Algumas das cenas mais tocantes do longa são provenientes de sua comovente atuação. Em uma trama complexa, repleta de histórias cruzadas e personagens intensos, Hoffman não se ofusca e entrega uma curta performance memorável.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Além da Terra

Cena do filme "Interestelar" de Christopher Nolan

Somos tão diminutos e insignificantes
Seres microscópicos em um recipiente transparente
Ciosos de nossa sabedoria convincente
Mas, acima de nós, há um silêncio angustiante
E indiferente.

Não sinto o chão de pedras
Meus olhos fitam o céu e além
O véu anil, as formas brancas
Que moldam a imensidão que me convém.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

O Cavaleiro

Cena da série de jogos "Zelda"


Ao amanhecer, era possível escutar o bramir dos seus passos
As montanhas, as árvores, os bosques o estavam esperando
Pertencia àquele lugar, a liberdade era a sua vitalidade
Um guerreiro silente às vozes da natureza
E quando fitava o céu, quando rodeava os campos
Enxergava a vida bruta antes de qualquer lapidação
Seria o paraíso tão sublime como aquele lugar?

Seu surgimento imponente proporcionava segurança àqueles seres
Pelos caminhos cavalgava sem rumo, porém resoluto
Um guardião altruísta, filho do anonimato, senhor de si mesmo
Seus olhos reluziam quando contemplava tamanha harmonia
Ao fim do dia, ele e seu cavalo descansavam ao pôr-do-sol
Armazenando energia para os dias de pugna que viriam
Não se importava com mais nada, além daquele lugar.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

FiXação

Cena do filme "Segredos de Sangue" de Chan-wook Park


Há 10 anos que, calidamente, desejo aquele corpo, cada pedaço dele, como um banquete que mataria a minha infindável fome. Quando a vejo, meu sangue vira vinho e me embriago de suposições, posições. Que vontade de sentir aquela carne nas minhas mãos inquietas, de fazer ela transpirar como se tivesse completado uma maratona. É coisa de animal indomável que nem uma tempestade de gelo resolveria. 

Há 10 anos, eu me camuflo na ética e finjo uma total indiferença. Eu sempre fui um bom ator, já ludibriei o amor, já fiz discursos passionais tão persuasivos quanto falsos, porém, para ela, eu emprestava a minha silente e ilusória resignação, por isso, jamais alguém desconfiou da minha obsessão por aquela pintura tão próxima da minha vida familiar.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

TAG - One Lovely Blog Award

Mari me indicou uma Tag, confesso que, inicialmente, eu nem sabia o que era isso, estou meio por fora desse tipo de coisa rsrs, mas eu gostei da ideia! Muito obrigado pela indicação.

1. Por que resolveu criar um blog? 
Não tenho uma explicação precisa para isso, apenas acordei um dia e resolvi, impulsivamente, publicar os meus textos empoeirados nos fundos dos cadernos.

2. Quais os benefícios que o blog te traz?
Financeiro, nenhum, porém, conhecer novas pessoas e blogs interessantes, por meio do que escrevo, e receber comentários construtivos acerca dos textos, é inestimável.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Viagem Ao Infinito

Cena do filme "Os 12 Macacos" de Terry Gilliam

O mesmo sonho, as mesmas imagens que insistem em habitar minha mente: o corpo coberto de sangue, os vidros estilhaçados, o motorista bêbado e o derradeiro riso do moribundo ao me ver. Majoritariamente, esse é o meu sonho desde a minha infância, talvez seja uma mera lembrança ou talvez seja proveniente de alguma ficção. Não sei.

Antes que eu possa me aproximar do moribundo, acordo mais uma vez:

- Em que ano estou? - Pergunto para a loira apressada que atravessa a minha frente com enormes fones de ouvido.

domingo, 26 de outubro de 2014

A Outra História Americana (American History X)

Ficha Técnica

Ano: 1998
Direção: Tony Kaye
Roteiro: David Mckenna
Gênero: Drama/Policial
Duração: 119 minutos
Elenco: Edward Norton, Edward Furlong, Beverly D'Angelo...


Cena do filme "A Outra Hstória Americana" de Tony Kaye
                           

Existem filmes que somente pela sua temática já seriam relevantes, porém quando ela é apresentada de forma profunda e poderosa, eles se tornam diferenciados, e esse é o caso de “A Outra História Americana”.

O filme narra a história de Derek Vinyard (Edward Norton), o carismático líder de uma gangue racista que é preso por cometer um brutal assassinato. Após cumprir sua pena, arrependido do seu legado e determinado em mudá-lo, Derek percebe que deve salvar seu irmão Danny (Edward Furlong) de seguir o mesmo caminho.

domingo, 19 de outubro de 2014

Irmãzinha

Cena do filme "Túmulo dos Vagalumes" de Isao Takahata


Os primeiros passos, as primeiras palavras esboçadas
De uma dádiva viva, com a ingenuidade do tamanho do mundo
Os olhos brilhantes, o riso doce, como se fosse
O riso da esperança.
A beleza límpida de uma criança crescendo, descobrindo a vida
E não há nada mais divino do que participar desse processo
Cada valioso momento com uma alma preciosa

E o tempo, como um exímio moldador, transformou
Aquela pequena anja com suas nuances infantis
Em uma rara estrela, bela como uma atriz
Que, em um céu de sombras, sempre brilhou

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Anestesia dos Sentidos


Parte I - Elaborada pela excelente escritora Carol do Blog Sépia


Cena do filme "Matador" de Pedro Almodóvar


Parte II

Ela me sufocava, roubava minha respiração, minha identidade. Para ela, eu era apenas uma presa indefesa, um mero alimento para sua insaciável fome de animal selvagem. 

Suas unhas feriam minha epiderme, seus beijos possessivos cutilavam meus lábios, ela almejava o meu sangue sobre o corpo dela, uma vampira sádica. Nossos corpos se digladiavam à procura de algum conforto, porém, a sintonia verteu-se em estranheza. Não enxergava mais, sob aquela superfície animalesca, os toques afáveis, a intensidade controlada, o esmero do amor. Eu não sentia nada, além da latente insegurança.

sábado, 4 de outubro de 2014

Adeus


Cena do filme "Namorados Para Sempre" de Derek Cianfrance

Era o duelo da madrugada
O sonho do lado de fora
Espreitando o pesadelo

Era o início do beligerante confronto
Entre dois seres que exalavam tristeza
Mas que se apaixonaram no primeiro encontro

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Paint the walls with my brain

Cena do filme "Clube da Luta" de David Fincher


Desligou a TV de 50 polegadas, enxergou o seu reflexo na tela em silêncio, a poltrona levemente reclinada, as paredes vermelhas, harmonizando com o exuberante jogo de sala. A janela aberta exibindo o fim do dia e o início da epifania. Aquele filme havia mexido com ele de um modo inédito em sua vida, não esperava que o comentário "Um Soco na Mente", escrito na parte de trás da capa do filme, fosse tão verdadeiro.

Olhando fixamente para a sua imagem, remoía todas aquelas frases cuspidas da boca feroz de Tyler Durden, seu ídolo instantâneo, a personaficação do inconformismo e do caos. Geralmente, a dissociação entre cinema e realidade era natural em sua vida, porém, os dias corriam e as palavras de Tyler permaneciam. A rotina era a mesma, mas algo nele havia radicalmente mudado. As distrações eram inúteis. O seu predominante pensamento era: "Está tudo errado, minha vida é uma puta farsa".

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Jogo Da Vida

Engraçado e, ao mesmo tempo, trágico como certas coisas não mudam.

Cena do filme "Encontros e Desencontros" de Sofia Coppola


Choro copiosamente, o peito dói, meu coração inquieto não me engana, apesar dos disfarces mais exuberantes, infiro convictamente: o que me faz feliz não é desse mundo esquemático.

A pior parte é que são lágrimas imaginárias, sofro por dentro, explosões internas contra o espelho, o fado da indecisão me impede de subir os degraus da justiça interior.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Sobre Pedras e Águas

Cena do filme "Mundo Cão" de Terry Zwigoff 


Uma pequena pedra, estática na correnteza, observa o fluxo das águas, que vão e voltam, enquanto ela permanece inerte no fundo do rio. 

Essa pedra parece não se importar com o movimento, com a pressa das águas. Ela não sente vontade de se mexer, de mudar de lugar, de seguir a corrente que não cessa.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

O Chamado Da Violência

Cena do filme "Taxi Driver" de Martin Scorsese

Todos os dias, por trás dos vidros do seu Chevette preto, ele sentia a podridão que vinha das ruas, dos bares, dos bordéis... Nem o esgoto era tão fétido, nem o monóxido de carbono dos veículos intoxicava tanto quanto ver aqueles traficantes vendendo drogas com o sol de testemunha, rindo da impunidade, enquanto os policiais e políticos estavam ocupados demais com suas putas, pagas com dinheiro de suborno, dinheiro sujo, tão imundo quanto eles próprios.

O motorista do Chevette observava tudo com asco, com os olhos distantes e ávidos por uma inclemente tempestade que limpasse toda essa imundície da cidade. Suas retinas também miravam o porta-luvas do carro, que escondia um revolver calibre 38. Era uma medida de precaução, mas ele desejava,ansiosamente, utilizá-lo.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

(500) Dias Sem Ela

O blog está completando um ano esse mês e resolvi republicar um dos primeiros textos que escrevi aqui como uma forma de auto-homenagem preguiçosa rsrs. Agradeço imensamente o apoio das pessoas que continuam me incentivando a escrever e aquelas que comentam e gostam de alguma coisa do que escrevo.



Cena do filme "(500) Dias Com Ela" de Marc Webb


E então foi consumido por um sentimento inoportuno e familiar
Velhos devaneios, lamentações, preso às lembranças vagas de uma utopia
Não sabia como se libertar, como esquecer...
Mas sabia que estava exagerando, que não havia motivo algum para alimentar esperanças,
que não existia reciprocidade, ou nada perto disso

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A Carta Perdida

Cena do filme "As Pontes de Madison" de Clint Eastwood


     “Hey C., como vai? Primeiramente, quero te avisar que as palavras que virão a seguir não são típicas de nossas conversas pela internet. Elas são resultado de anos de silêncio, receio e medo, mas, finalmente, puderam se libertar e chegar ao seu destino.

      C., eu gostaria que você soubesse que, apesar de todo esse tempo sem te ver, não houve um dia em que eu não pensei em você. A cada dia, semana, mês, ano eu me lamentava profundamente por não ter tido coragem de dizer o que sempre quis expressar logo que te conheci, naquele longínquo ano de 2008. Eu sei que pode parecer loucura, petulância, atrevimento, seja o que for, ainda mais considerando todo esse tempo e tudo o que cada um viveu desde o ingresso na universidade. Entretanto, eu não estava suportando mais viver com todo esse sentimento reprimido.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Não Há Filme

Eu preciso de um rumo
Um prumo qualquer
Uma direção, uma ilusão
Cedo ou tarde, terei que me encaixar
No circo dos covardes
Que fingem felicidade
Sobre a morte lenta
Imperceptível
Voluntária.

Sob o sol que não esquenta
Que aguarda a desistência
Reside uma pertinaz consciência
Que me alenta
Que me arrebenta.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Doce Infância


Cena do filme "Meu Amigo Totoro" de Hayao Miyazaki


A mulher, com os olhos taciturnos, encarou a menina e disse:

- Você não sabe a sorte que tem por ser criança.

A menina não prestou atenção e saiu em disparada pela porta, porque as crianças são assim, dispersas e distraídas.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Os Palhaços Suicidas

Poster do filme "Patch Adams" de Tom Shadyac


A indissociável melancolia que os consome
Não tem nome nem sobrenome
Apenas existe e persiste
Mesmo por trás dos doces risos
Das gargalhadas infantis
Da roupa vívida
E da face colorida.

É triste quando alguém, da vida, desiste
Pior ainda é saber que pessoas, cuja alegria nos contagia
Entusiastas do amor e do humor
Sem avisos, matam seus sorrisos
E deixam sua plateia atordoada e
Carente

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O Homem de Negócios


Cena do filme "Sangue Negro" de Paul Thomas Anderson


Os olhos negros exalavam ódio pelas suas retinas intrépidas, a síntese do desprezo em sua face embrutecida.

- Eu odeio as pessoas, odeio tudo que vem delas - Confessava ao espelho.

A imagem refletida pelo vidro revelava um rosto amargo, corroído pelo tempo, sem escrúpulos, uma força movida pela avareza, pelo desejo de sugar qualquer vestígio de concorrência.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Rua dos Anjos Caídos


Cena do filme "Cães de Aluguel" de Quentin Tarantino


Um tiro, um último suspiro, um célere cheiro de pólvora que invade a loja e os alvéolos pulmonares de Rafael. Era o fim inesperado pela infalibilidade do plano. Que perversa ironia. Logo Rafael que havia se recuperado de uma severa asma.

Esses imprevistos acontecem o tempo todo, se nada tivesse acontecido, esse breve conto nem existiria, talvez existisse, mas seria fastidioso, como a maioria dos dias. A tragédia inspira. Porém, eu lamento pelo Rafael, não precisava ser o seu fatídico dia. Não precisava, mas foi, e tudo se iniciou com uma pueril ideia, uma semente corrosiva:

terça-feira, 29 de julho de 2014

Sintomas

Cena da série "House M.D." de David Shore


O corpo esmorecido, adoecido
Pedindo auxílio, angustiado, doído
Que dor de cabeça,
no peito, tosse ríspida que fere os pulmões
Que desalento
Secreções
Os olhos exauridos, pálpebras de chumbo
Vermelhos, remelando e umedecendo
O sono me consome, preciso dormir
Acordo e tudo está lá de novo
Nem tive tempo para sonhar,
para um lépido alívio
A febre se lembrou de me despertar
As pernas claudicantes, o tronco insustentável
Almoço injeções
Janto comprimidos
E o corpo, traiçoeiro, insinua vigor
Brinca com as expectativas
Porém, lá vem a dor
e o dissabor da vida.


Por Vitor Costa

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Flor Dourada

Cena do filme "Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas" de Tim Burton


Eu jamais imaginaria
Que no meio da estrada
Entre frutas e poeira
Eu encontraria uma flor dourada
A mais bela de toda a feira.

A sua vasta beleza era apenas o início
Pois, a cada palavra,
a cada sorriso
Maior era o encanto,
maior era o indício
De que, ao lado dela, eu estava no paraíso.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Descobertas

Cena do filme "Veludo Azul" de David Lynch


Os olhos verdes inebriados
Escondiam uma vastidão de descobertas
Dois extremos do mesmo quadro
Duas almas incompletas.



Vitor Costa

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Bicho-Preguiça

Cena do filme "O Grande Lebowski" de Joel e Ethan Coen


    Atualmente, ser educado é um exercício um tanto árduo que exige uma paciência e um autocontrole de outro planeta.

     Inúmeras vezes sinto aquela chama corrosiva invadindo o meu estômago e subindo pelo esôfago até ficar enjaulada na garganta e retroceder para o ponto de origem, queimando ainda mais na volta.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Enterrado Vivo

Cena do filme "Enterrado Vivo" de Rodrigo Cortés

Hoje eu acordei estranho
Lembrei-me do futuro e não te vi
Hoje eu acordei castanho
Embora meus sonhos sejam azuis

Hoje eu me abismei na solidão
E me afoguei no seu sorriso
Hoje você me disse "não"
Como se eu nunca tivesse existido

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Tokiopia

Abertura do filme "Enter the Void" de Gaspar Noé

         Não sei como vim parar aqui, neste quarto de hotel obscuro, essa cama que não me conforta, travesseiro austero, lençóis estranhos, definitivamente não é o quarto, onde o meu corpo adormecera na noite passada. O pânico que me consome só não é mais intenso que a minha inerente curiosidade investigativa. 

      Ao meu redor, há uma quantidade incalculável de luzes caleidoscópicas que esmorecem minhas lembranças, tal como um labirinto de cores vertiginoso.

Desencanto

Cena do filme "Terra em Transe" de Glauber Rocha

          Minha paixão por futebol vem desde a minha nostálgica infância, onde as ruas se transformavam em estádios, a latinha amassada em bola estilizada, os chinelos em traves, as crianças em Ronaldo, Rivaldo, Roberto Carlos, Cafu, entre inúmeros outros ídolos que inspiravam o imaginário do povo.

           Nessa época, eu, como a vasta maioria dos meninos brasileiros, sonhava em ser jogador de futebol e vestir a mítica camisa amarela da Seleção, era o ápice de qualquer fantasia. Nesse mesmo período, eu já torcia insanamente para o clube que simpatizei de imediato, Corinthians, e tinha uma profunda admiração pela Seleção. Na verdade, eu enxergava os jogadores da Seleção como vindos de “outro planeta”, pois eu não tinha conhecimento dos campeonatos europeus, onde a grande parte deles jogava, logo, eu os considerava jogadores exclusivos da Seleção, aqueles poucos dignos de representar uma nação inteira de sofredores, uma espécie de tropa de elite do futebol.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Dançando no Escuro (Dancer in the dark, 2000)


Cena do filme "Dançando no Escuro" de Lars Von Trier

          Lars Von Trier foi um dos fundadores, junto com Thomas Vinterberg, do manifesto Dogma 95, que pregava basicamente a valorização do conteúdo das narrativas em detrimento dos seus recursos estéticos, sendo que um dos principais representantes dessa tendência foi “Os Idiotas” dirigido por Trier. Antes de aderir a esse movimento, ele realizou obras peculiares como “Europa” e “Ondas do destino”.

           Após a queda da “febre” do manifesto, Trier realizou uma das melhores obras (senão a melhor) do seu invejável currículo, “Dançando no escuro” que recebeu certa influência do movimento, mas não de modo intenso.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Autômatos

Cena do filme "Eu, Robô" de Alex Proyas

Todos seguimos um padrão, letras, números, religião
Não acreditamos em nada que criamos, então imitamos
Seguimos exemplos, modelos de vida cientificamente aprovados
Não temos identidade, apenas documentos e consentimentos.

Esperamos por milagres, pelo prêmio da loteria, pelo sorteio no programa
E imitamos o astro da novela, o policial da favela, o jogador de fama
A garota da revista, a cantora narcisista, a princesa apaixonada
Para que, um dia, sejamos notados
Para que a nossa imitação de vida vazia seja finalmente recompensada.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Mil Passados e Nenhum Futuro

 Cena do filme "O Segredo dos Seus Olhos" de Juan José Campanella

          Recentemente eu assisti a um excepcional filme argentino chamado “O Segredo dos Seus Olhos” e uma frase proferida por um dos personagens do filme me chamou especial atenção. Em determinado momento da película, esse personagem adverte o protagonista Benjamín Esposito (Ricardo Darín), que é um sujeito extremamente obcecado pelas decisões e hipóteses do seu passado, de que se ele prosseguir com sua exploração incessante, remoendo todas as minúcias daquela época, vai acabar tendo “mil passados e nenhum futuro.” Essa afirmação me fez refletir de tal forma que eu decidi visitar, pela enésima vez, o meu passado não tão longínquo e tentar compreender o porquê da minha insatisfatória situação atual no âmbito profissional. Porém, sem criações dispensáveis, suposições infundadas e possibilidades ilusórias de novos passados, pretendo me ater somente ao meu “primeiro” e único passado.

          Cá estou novamente nessa encruzilhada, mas, dessa vez, o cerco está se comprimindo e me sufocando de um modo deveras aflitivo, diferente de 6 anos atrás, quando eu parecia mais resoluto, quando os vestibulares eram minha única preocupação e meu futuro estava bem alinhado com as expectativas que eu tinha.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O Show de Truman - O Show da Vida (Truman Show, The, 1998)

Antes de iniciar essa resenha, gostaria de dizer que estou inaugurando uma nova categoria de textos no blog, voltada a uma análise crítica de filmes diversos. Não sou nenhum crítico profissional, sou apenas um cinéfilo que deseja compartilhar suas impressões e considerações acerca de obras cinematográficas. Espero que apreciem de alguma forma.


Alerta de Spoilers!!

 Em 1998 Jim Carrey já havia se consolidado como um comediante de sucesso e comprovado seu talento para o humor em filmes como “Debi e Lóide” e “O Mentiroso”. Porém, o ator decidiu se enveredar por um ramo até então desconhecido para ele, um drama que seria dirigido pelo renomado diretor Peter Weir, conhecido por realizar obras com um elevado teor reflexivo, como “A Sociedade dos Poetas Mortos” e que se basearia em um roteiro original elaborado por Andrew Niccol, o realizador da perspicaz ficção-científica “Gattaca”.
 Felizmente, a aposta se revelou um enorme acerto para todos os envolvidos no projeto, “O Show de Truman” foi um dos melhores e mais originais filmes daquele ano e, ouso a dizer, da década de 90.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Time to Meet the Devil

Cena do filme "Apenas Deus Perdoa" de Nicolas Winding Refn

Era uma quarta de manhã, um calor descomunal e um TCC para apresentar. Apesar de aparentar total tranquilidade, eu estava tenso e tomei uma decisão que aumentou ainda mais aquele estado, a infeliz atitude de acompanhar a apresentação de meu antecessor, cujo tema do trabalho era similar. Ao perceber a boa desenvoltura do meu veterano ao se apresentar e, mesmo assim, as severas críticas recebidas por ele, principalmente, realizadas por um tal professor, imaginei-me como seria massacrado do mesmo modo ou até pior.
Então, com o nervosismo à flor da pele, fui me apresentar. Nunca fui bom com a oratória, mas, especialmente naquele dia, estava mais apreensivo que o habitual e isso se refletia nas minhas palavras incertas.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Redoma

Cena do filme "O Show de Truman" de Peter Weir
Eu queria explorar o mundo
Por trás da minha imaginação, lá nos confins do desconhecido
Onde o horizonte possa se aproximar de mim
E me mostrar os sonhos velados ao seu lado, vagarosamente
Todavia, eu me sinto enclausurado nesse vasto cenário de concreto
Repleto de performances coletivas, atores e atrizes em sincronia
Há tanto tempo eu vivo nesse programa 

terça-feira, 3 de junho de 2014

Minha Mãe

Cena do filme "Philomena" de Stephen Frears


    Minha mãe tem um coração puro, é meu porto seguro
    Onde posso despejar minhas incertezas e tristezas
    E sempre serei ouvido, não importa o ocorrido
    Com calma, ela acaricia a minha alma
    E me revigora nos seus braços queridos.

    Ela me faz acreditar na humanidade
    A valorizar a bondade,
    A não ser arrogante, a respeitar o intolerante
    Porém, com a cabeça erguida para a vida.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Fale Com Ela

Cena do filme "Fale com Ela" de Pedro Almodóvar

"Por que a pressa moça?
 Por que não se senta nesse banco da praça
 Diga-me o que se passa
 Eu sei que a sociedade exige a sua presença
 Porém, fique um pouco, aqui o tempo espera."

Não se preocupe com o estranho que te cumprimenta
Ele não te oferece perigo, ele só quer ser um abrigo
Para tudo o que te atormenta
Ele, pela aparência, não te julga
Nem, pelo pensamento, te devora
Ele quer entender a melancolia que te domina
Por trás do rosto de menina
E do esplendor do seu sorriso.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Roteirizando a Vida

Cena do filme "Os Incompreendidos" de François Truffaut

Eu ando carente de solidão
Carente daquela liberdade etérea e solitária
Eu ando carente de mim mesmo
Carente de não sentir carência social.

Essa necessidade de ser aceito, adorado, amado
Ocasionalmente, deixa-me preocupado
Será que estou fazendo tudo errado?
Será que estou sendo imitado?

domingo, 4 de maio de 2014

O Moribundo


Cena do filme "Melancholia" de Lars Von Trier

            “Doutor, eu quero todos os anestésicos possíveis.”

            Aqueles olhos vermelhos não enganavam, era um pedido de um moribundo que não suportava mais as dores do mundo, nem as de si mesmo.
            Fugir de uma realidade imposta, supostamente natural.
            O moribundo queria sorrir sem pensar e nem recordar que sorriu um dia, quando o mundo cabia em uma rua, quando viajava nas alamedas de suas perspectivas.
           Desistiu cedo demais, enterrado por suas convicções impulsivas. Desistiu de si mesmo e da mudança que considerava ilógica.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Instantes Constantes



 Cena do filme "Lembranças de outra vida" de Carlo Carlei 

E como uma criança despreocupada
Nem notava que a felicidade era uma constância
Era enxergar a grandeza do mundo
Com os olhos doces da infância.

Vitor Costa

terça-feira, 1 de abril de 2014

Célere Distopia

Pôster do filme "Brazil - O Filme" de Terry Gilliam

            O escritório estufado, a vista pela janela das fábricas funcionando incessantemente no meio de árvores que compõe um mar verde infindável, as máquinas que camuflam os operários, e, ao toque do sinal ensurdecedor, tudo se esvai, como um devaneio cibernético, os homens readquirem sua condição humana e as máquinas se tornam vazias, suas engrenagens estáticas transparecem carência.
            Mais um dia que termina, mais um parágrafo que chega ao fim, e tenho a sensação que não escrevi tudo o que eu pretendia. Sempre há espaço para as palavras não ditas, assim como sempre há espaço para o que não vivi ainda.

Vitor Costa

sábado, 15 de março de 2014

Asas do Passado


Cena do filme "Um Sonho de Liberdade" de Frank Darabont

Discursos bem articulados que se tornam cinzas
Prisão invisível que incorpora os pensamentos
Os dias que prometem mudanças
O esquecimento do próprio ser
Até que abruptamente a realidade acorda
Absorvendo os vestígios de esperanças.

Um sistema contestado a todo o instante
Que causa náuseas, tensões diárias
Revolta despertada por um principiante
Que precisa se adaptar para realizar seus sonhos.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Vergonha

Cena do filme "Shame" de Steve McQueen (II)

          Michael acordou esbaforido, aquele habitual anseio o estava dominando novamente.
          Levantou-se da cama sedento pelo sangue do seu vício, tentou focar os seus pensamentos em qualquer outra distração, mas, invariavelmente, inúteis eram os seus esforços.
         Então, fartou-se da refeição de si mesmo, deglutindo cada pedaço da sua vulnerável consciência.
           Quando parecia que estava saciado, eis que surgia um resquício da sua lascívia que recriava a indomável tempestade de desejo. Novamente, via-se vertido em instintos.
            Cada vez mais tortuosa era a obrigação de disfarçar a sua natureza pervertida. Em todo o lugar que ia, a cada corpo feminino que atravessava o seu caminho e lhe atraía, sua mente se encarregava de conceber as mais diversas promiscuidades, todas as picardias imagináveis e inimagináveis. Aos seus olhos eram corpos nus implorando por sexo. Extasiava-se com os hipotéticos gemidos de prazer de cada um.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Ela

Cena do filme "Ela" de Spike Jonze

Meus sentimentos eram artificiais ou reais?
Eu amava a ideia que eu tinha do amor, não amava a realidade, tão cética.
Eu amava imaginar você nos meus braços, do meu lado, na minha cama, e eu poderia desabafar o mundo, esquecer-me dos meus pensamentos insidiosos.
Eu amava uma concepção, uma hipótese, quem me dera que a minha quimera fosse minha vida.
Eu amava a mim mesmo quando estava apaixonado.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Vida Pueril

Cena do filme "História Real" de David Lynch

Minhas mãos estão sujas de poeira
Esse céu que não muda de cor
Os cães rodeando a sujeira
Esse marasmo que me causa dor
Quem viu aquele carro de luxo?
Quem queria ter o mesmo carro?
Só que você não tem
E sabe que não precisa

Preencha-se de valores subjetivos
Contas correntes de atitudes
Bancos de ideias
Retire o seu saldo moral

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O Egoísmo Nosso de Cada Dia

Cena do filme "O Sucesso a Qualquer Preço" de James Foley
 
Palavras ininterruptas, o ponto final do desespero
O peso do passado recai sobre os ombros exauridos do presente
Os sussurros de uma multidão de fantasmas apressados
Pelo sangue verde que entorpece o ambiente

As preces das crianças invisíveis
Os olhares atentos aos espetáculos midiáticos
Quando a mobília de ouro afundar
Talvez os escândalos sejam percebidos

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Busca Impaciente

Cena do filme "Na Natureza Selvagem" de Sean Penn

É aquela velha história, a mesma de tantas vidas
Aqueles espelhos que distorcem a realidade
Aquela mesma ganância que move esse mundo insano
E a mesma tentativa árdua de ter paciência

Porém, a paciência que procuro talvez não esteja aqui
Perto do concreto, da fumaça, do conhecimento superficial
Talvez esteja escondida nos bosques, nos mares, nas sociedades ocultas
E esteja esperando por mim, absoluta.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Recriação

Cena do filme "Antes do Pôr do Sol" de Richard Linklater

            Em outro dia, em outra ocasião, quem sabe nos encontremos nessa imensidão de possibilidades.
Mas, se o destino tiver compaixão, irá, ao menos, recriar-te em uma nova versão da minha ilusão.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Destempos

Cena do filme "Fonte da Vida" de Darren Aronofsky

Mais um ano que se inicia, que se repete, que se renova. Novas promessas e esperanças, alentos das mudanças que precisam ser martelados incessantemente no fundo do peito, enquanto o coração pulsa e o sangue se enerva.
A vida é um incontrolável relógio que funciona, ininterruptamente, sem remorsos ou esforços. Anos, meses, semanas, dias, horas...tanto faz, são apenas medidas, números que se esvaem ao amanhecer.
Por isso, a felicidade, em seus instantes límpidos, consiste em se livrar das correntes opressoras do tempo. Quantas vezes ficamos tão imersos em um momento de júbilo genuíno que nos esquecemos de indagar sobre as horas?
Vitor Costa

sábado, 4 de janeiro de 2014

10 Minutos

Pôster do filme "Cosmópolis" de David Cronenberg

"Você tem 10 minutos."

           O pranto cessou, um silêncio penetrante dominou a sala, Kevin fitou o relógio com os olhos secos de perplexidade, não sabia mais o que fazer ou que dizer para contornar o inevitável. 
         Avistou a paisagem da janela com a frustração de nunca ter reparado naquela pintura viva, era a dança das árvores com a brisa, as folhas balançavam delicadamente e pareciam convidá-lo a participar do momento, queria poder dizer às bailarinas do ar:

"Calma, já estou indo."